Formato GUIFES #2 – Feri(d)as

FORMATO GUIFES #2 – Feri(d)as, por João Pinto

Última semana de maio – Com os exames marcados para o fim de Maio, os professores deixam de dar matéria por esta altura. Os meninos andam cansados mas felizes porque acabaram as aulas. Yeah! A seguir, e até ao fim oficial das aulas, é descanso activo para todos. Os avós vão ansiosamente buscar os meninos à escola. Os pais esforçam-se por dividir equitativamente o tempo que os meninos passam com os avós paternos e maternos, avaliando os progenitores em rácios como “tempo-no-tablet/tempo com os avós” e “quantidade de açúcar/quantidade de comida”. Tempo ao ar livre é considerado uma mais-valia. Os avós esforçam-se por serem bem avaliados para obter a preferência dos filhos. A devolução dos herdeiros aos pais é um processo que leva entre 30 a 40 minutos e seis bolachas para o caminho.

Junho – A escola está aberta, mas não há aulas. Os miúdos brincam livremente no recreio o dia todo e estão ocupados até às cinco da tarde, mas podem sair mais cedo se quiserem. Os pais estão com os fechos trimestrais e afins e ficam no trabalho até mais tarde. Os avós vão buscar os meninos à hora, mas começam a falta ideias para os entreter em casa e começa a ser permitida alguma latitude às crianças. Podem ver tv durante mais tempo e podem comer na sala. A alternância entre avós é agora vista pelos mesmos como algo positivo e saudável “para que conheçam as suas origens”.

Julho – A escola fechou. É mês de praia. Além de saírem muito mais cedo da escola, os príncipes e princesas trazem areia do espaço entre os dedos nos pés até aos refegos das sobrancelhas. O avô cede o direito ao outro avô de ir buscar as crianças para evitar ter de retirar uma duna do banco de trás todos os dias. Para as avós, há banho para dar e creme para pôr. A praia cansa e o cansaço mói. Lavar e barrar uma criança com birra é como tentar dançar “paso-doble” com um atum. Para evitar chatices é permitido aos meninos jogar no tablet, no telemóvel da avó e no telemóvel do avô. O nível de açúcar também passa do nível “come antes fruta” para “tira os que quiseres”. Felizmente, ainda há atividades como a escola de futebol, o hip-hop e o karaté. A coisa atamanca-se. O período pré-férias nos empregos é complicado. Algumas noites, as crianças acabam por ficar nos avós. Mas “nos outros avós era melhor, por causa que o vizinho está em obras e eles nem descansam”. A entrega das crianças ao fim do dia é feita sem contacto visual.

Agosto – A escola fechou. Não há atividades. Os pais só têm duas semanas de férias. Não se pode estar na rua. Não se consegue estar em casa. Os minutos passam devagar. Consultas médicas de última hora, fumigar a alcatifa, o funeral de um velho amigo do emprego “que já nem me lembro o nome”: tudo são boas razões para “hoje não poder ficar com eles”. Há acusações entre avós por desconfiança das razões da indisponibilidade. Pedem-se provas. Nesta altura há sempre uma caixa de gelado de 1 litro, uma taça e uma colher disponíveis junto ao frigorífico.  As crianças podem jogar tablet enquanto comem frango com maltesers. O uso da internet é livre. Os telefonemas de “demoras muito?” começam às três e meia da tarde. As crianças são deixadas no alpendre do prédio meia hora antes da hora marcada.

Setembro – Depois de duas semanas de férias com os pais, as crianças estão ansiosas por voltar às aulas e mais irrequietas que nunca. Os compadres deixaram de se falar. O almoço é, não poucas vezes, pulmão de porco com brócolos. Talvez a roupa lavada em casa dos avós provoque algum prurido e irritação cutânea. A avó desiste de costurar para não ter objetos afiados à mão em alturas de tensão. As crianças são incentivadas a jogar tablet nas viagens longas e a carregar o telemóvel no banho. Pode-se comer na sala, desde que seja na casa do vizinho.

 

Segunda semana de setembro – As aulas começam. Os meninos e meninas voltam à escola. Levantam-se cedo, saem da escola para as atividades e têm muitos trabalhos de casa. Já não vão aos avós há duas semanas. Bate a saudade. “Porque é que não vêm cá almoçar no sábado?”

 

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